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Escolha do calibre e o mito do “Poder de Parada”*

Por Greg Drobny
Tradução de Aldam-Rio Ltda

 

Este artigo foi publicado pela primeira vez na Unapologetically American

 

Os americanos amam suas armas. Dos revólveres Colt clássicos do século 19 ao amado “design” da “1911” de John Browning, as armas ocupam um lugar especial na cultura americana.

Todo mundo tem suas predileções, é claro, e muitas vezes polêmicas ocorrem na internet. Exemplo disso é a discussão sobre qual calibre é a melhor escolha para defender-se e ao seu domicílio, contra possíveis intrusos, zumbis ou duendes (sério – eles estão lá fora e vão te pegar!).

Como alguém com uma quantidade razoável de conhecimento sobre armas e muito pouca preferência em relação à escolha de calibre, acho que posso a oferecer uma contribuição sólida de lógica para trazer alguma sanidade à essa discussão, provavelmente mais acalorada do que qualquer debate político por aí. Suponho que um bom número de pessoas dará cambalhotas depois de ler mais alguns parágrafos.

Para simplificar, vou limitar o alcance do meu artigo para os calibres de arma de fogo “9×19” e “.45 ACP”, dois dos mais populares em todo o mundo. Não vou discutir se um “.50” é ou não um bilhão de vezes melhor ou se um “.22 Magnum” é uma ótima escolha porque, para ser honesto, não é aí que está o debate. Aqui o foco será o dos problemas sérios e reais com armas de fogo, em vez de avaliações dos melhores coldres em “Kydex”, por exemplo.

Ok, então agora que todos estão prontos para pular de seus computadores e me espancar até a morte com a coronha de suas “G2C”, vamos começar indo às fontes malucas. Não é uma citação de algum atirador de renome mundial; não é um relato em primeira mão de um policial; e não o cara da loja de armas local, e sim a anatomia e a fisiologia humana.

Vamos nos voltar para as realidades da anatomia humana. Adivinhem porquê? O principal objetivo de uma arma e seu respectivo calibre, no nosso caso, admitida ou não, é atirar em pessoas. Então, quão bem ela explode uma melancia é bastante irrelevante.

Então aqui vai uma pergunta: quais são as únicas maneiras pelas quais um projétil de arma de fogo pode incapacitar definitivamente um ser humano?

Resposta: 1) impacto direto no sistema nervoso central 2) produção de substancial perda de sangue.

É isso aí. Não existe “poder de parada” quando falamos de calibres de armas de fogo curtas. Um projétil disparado de uma arma curta só pode matar uma pessoa dessas duas maneiras. Então diga comigo:

Não existe “poder de parada” quando se trata de armas de fogo curtas! **

Observe que disse armas de fogo efetivamente curtas. Sim, não estamos falando sobre um “.50 BMG” cujo projétil poderia arrancar a perna de alguém. Estamos falando de armas, em seus respectivos calibres, passiveis de serem portadas de forma velada.

À luz disso, o conceito de “poder de parada” é um mito!


Como posso ter tanta certeza? Bem, podemos consultar outra fonte especializada:

A Física!

 

           

Veja, aqui está o problema de as pessoas acreditarem nisso que chamam de “poder de parada”: se tanta “energia estivesse sendo transferida” (com o devido pedido de perdão aos peritos pelo uso dessa expressão horrorosa), adivinhe onde mais ela seria sentida? Se você respondeu algo sobre “reação igual e oposta”, vá em frente, compre uma cerveja e coloque na minha conta.

A série “Mythbusters-Caçadores de Mitos” tratou disso, mas que precisa ser repetido indefinidamente: uma pessoa que leva um tiro não terá mais força exercida sobre ela do que sobre o atirador.

A razão pela qual, em última análise, o resultado diferente para o alvo se dá por causa da penetração***. A “força” (mais uma vez peço perdão aos peritos) do projétil em si faz pouco, por isso deve contar com a penetração para causar danos, caso em que nos referimos aos dois métodos que podem realmente matar/incapacitar um ser humano: substancial perda de sangue (choque hipovolêmico causado por perfurações na área do torso, preferencialmente) ou impacto direto no sistema nervoso central/tronco encefálico.

Com esse entendimento, todo esse “debate” sobre qual calibre é o melhor de repente ganha uma luz totalmente nova. Por quê? Porque a grande importância não é choque, pavor ou qualquer outra frase de efeito, mas sim a colocação do tiro – especificamente em áreas que podem causar as duas resultantes citadas (e quanto mais rápido, melhor!).

A ideia de que o calibre “.45 ACP” terá uma vantagem em “poder de derrubada” sobre algo o calibre“9mmP” é absolutamente ridícula. Por definição, um .45 faz um buraco maior? Bem, sim, 0,10 polegada, para ser exato. Isso vale um recuo extra? Isso é deixado para o usuário decidir.

Mas mesmo se você achar que 0,10 polegada extra é necessária, há outros fatores a serem considerados. Qual a capacidade de sua pistola “.45 ACP” em comparação com uma “9×19”” semelhante? Ou outra maneira de fazer essa pergunta é: dezessete perfurações de “9×19” têm diâmetro maior que oito/nove de uma “1911- Single Stack/.45 ACP”?

Que tal o tempo de recuperação entre um disparo e outro? Será mais rápido? Com menor recuo?

Esta é a realidade: não estou aqui para dizer que atirar com uma arma em “.45 ACP” (ou qualquer outro calibre) é uma má ideia ou uma escolha estúpida. Se você encontrou algo que funciona bem com você, ótimo! Vá em frente e torne-se proficiente! No entanto, se você acredita que um desses calibres é muito superior ao outro simplesmente por causa de uma fração de polegada, é hora de repensar isso com base na anatomia humana e nas leis da Física.

Também é hora de acabar com afirmações como “bem, um amigo meu que é policial disse blá, blá, blá”. Muitos argumentos sobre este tópico baseiam-se em evidências anedóticas e experiências não comprovadas que não se sustentam se examinadas por mais de alguns segundos.

Veja desta forma: podemos testar os efeitos dos calibres nas pessoas? Não e mesmo que pudéssemos, não importaria; como as pessoas reagem ao trauma varia muito e torna literalmente impossível se envolver em qualquer tipo de teste científico relacionado às reações, mesmo se ainda fosse possível deixar a questão ética de lado.

Devemos olhar para a ciência, a saber, anatomia humana básica e física newtoniana simples, ambas as quais trazem a este debate um sentido mais lógico. E devemos usá-lo para eliminar hipérboles tanto quanto possível.

Além disso, devemos abordar uma série de fatores psicológicos que se tornam tão variados que quase ninguém tem ideia de que existem. Você sabia que a maioria das pessoas cai ao ser atingida por uma arma de fogo? E sabe por quê? Não é por fator fisiológico, mas sim psicológico, tornando este tipo de estudo mais difícil do que encontrar um exemplo de boa atuação em novelas da Record.

Então, por que eliminar os calibres menores e os realmente grandes, definitivamente?
Simples: lembra daquela palavra “penetração”?  Também é muito importante na balística terminal e, ao que parece, os calibres menores, em sua maioria, não se saem tão bem nesse aspecto. E os realmente grandes? Bem, sejamos realistas: você não é “Dirty Harry”.
Sim, eu sei que você finge ser ele no espelho, mas não é muito viável portar uma arma extremamente grande habitualmente, mesmo que seja legal mostrá-la aos seus amigos.

E qual seria a lição? Se você está focando mais sua atenção na escolha do calibre do que em acertar o alvo, você está errado. O barulho nunca matou ninguém em um tiroteio, então realmente não importa o quão grande sejam os projéteis que estão passando longe do cara que está atacando seus bonecos de “Comandos em Ação” para roubá-los de você.

Novamente, se você tem sua preferência e está bem com ela, isso é ótimo. Mas isso se torna um problema quando as pessoas começam a dizer aos novos atiradores que tem baixa estatura, que eles “precisam ter algo que tenha algum poder de derrubada! ”.

Isso cria mais problemas do que resolve, incutindo alguns hábitos realmente ruins nas pessoas ou possivelmente inibindo-as m suas reações.

Despeço-me, pois, tenho que polir meu “.44 Magnum”, que é, caso você não tenha ouvido falar, a arma mais poderosa do mundo e vai explodir sua cabeça!

Aqui estão algumas fontes para um estudo mais aprofundado, caso haja interesse:

Estudo antigo do FBI sobre balística terminal:

http://www.firearmstactical.com/pdf/fbi-hwfe.pdf

Estudo recente do FBI sobre balística terminal:

http://www.policeone.com/Officer-Safety/articles/7453193-Why-the-FBI-reignited-the-pistol-caliber-war/

http://soldiersystems.net/2014/09/25/fbi-9mm-justification-fbi-training-division/

http://www.thetruthaboutguns.com/2014/08/robert-farago/9mm-wins-caliber-wars/

*Nota do Tradutor: idealizada capacidade que o projétil de um determinado calibre teria de, em um único disparo e independentemente do local atingido, neutralizar um agressor.

 **É importante notar que estou considerando esses fatos à luz do propósito defensivo, já que os avanços na escolha da munição fizeram uma enorme diferença neste debate. Em outras palavras, não estamos considerando munições de armas curtas eminentemente desportivas.

 ***Nota do Tradutor: II – Resumidamente, com comprovada penetração entre 12 e 18 polegadas em gelatina balística, de acordo com os protocolos do FBI. II – A massa mínima do projétil também é fator a ser considerado, mas essa é uma outra discussão.

Em uma época de “especialistas”, Gregory Drobny acredita que o conhecimento de uma infinidade de disciplinas é necessário para a verdadeira sabedoria. Um andarilho contínuo e buscador de conhecimento, veterano do Exército dos EUA, em uma busca constante pelo significado da vida.

 

© 2020 The Havok Journal

Tradução de Aldam-Rio Ltda.

                                                                                          

                                                                                                                                                        

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